segunda-feira, 13 de abril de 2015

Spinning - Parte 1

Penso que não vou aguentar mais e sinto a gota de suor a escorrer-me pela têmpora. Com os dentes cerrados e o pensamento demasiado longe, volto à realidade com um grito poderoso vindo lá da frente "Faster!". Eu tento, e até consigo sempre. Mas acho sempre que não vou conseguir. Acho até que ela não pode ser totalmente humana, por conseguir dar duas aulas seguidas assim. O meu colega do lado sai da sala, eu penso em desistir quando ela começa finalmente a contagem decrescente: "Five...". Eu penso "já vai acabar","já vai acabar", "já vai acabar" - "Two...One... Ok!". Consegui. Uns segundos depois, recomeça tudo, e ela parece ainda mais tresloucada, canta partes de uma versão alterada da Billy Jean, enquanto continuamos a "escalar a montanha", eu pego na toalha, limpo a testa e as mãos mesmo antes do próximo sprint. Ela volta à carga "Faster!". Como é que ela consegue gritar assim? Eu mal consigo respirar. Acabo a aula com uma espécie de atitude renovada. Fazemos os alongamentos mesmo em cima da bicicleta, respiro fundo e fecho os olhos, sinto os músculos do dobro do tamanho, o espírito aberto e capaz de mais uma meia hora infernal.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

1 de Abril

Há precisamente dois anos aterrávamos em Gatwick e sentíamos o frio do final de um Inverno que tinha sido particularmente severo. Antes, a caminho do aeroporto com os meus pais vi a chuva mais intensa de que me lembro. Pensava que não ia ser capaz, aquele nó na garganta quase fechada, e chovia tanto, eu nem queria acreditar na intensidade daquela chuva, parecia que tudo conspirava contra mim. Do terminal enviei mensagem a dizer que estava bem, à espera do avião num dos extremos do aeroporto e o sol começou a brilhar mesmo antes de embarcar. Escrevo também para não me esquecer daquele dia que parece ainda que foi ontem. Parámos na Victoria Station para uma refeição de fast sushi e analisámos o mapa do metro. Há precisamente dois anos, arrastávamos as rodinhas das malas pelas ruas de Leamington pela primeira vez. Saímos do comboio a sorrir, devemos ter ido a viagem toda a sorrir. Eu, lembro-me, abismada com a quantidade de trampolins que se viam nos quintais. Perguntámos onde fica o hotel a alguém que não fazia ideia que, naquele instante, a nossa vida mudava. Fizemos o percurso que entretanto já repetimos centenas de vezes. Vimos alguns flocos de neve da janela do quarto de hotel que dava para o parque e ligámos as legendas na televisão. Naqueles dias de hotel, jantámos quase sempre no mesmo pub, alcatifado, quente. Lembro-me dos novos cheiros, do frio, de auscultar todos os dias a saudade e o meu bem-estar. Lembro-me da surpresa, afinal até está a correr bem. Mudou a nossa vida, mudámos nós, tanto, mas tanto. Mudou tudo à nossa volta. Foi há precisamente dois anos.