sexta-feira, 28 de março de 2014

Quite brilliant

Sempre gostei do sotaque inglês. Se calhar isto está relacionado com o facto de o ouvir muito menos vezes do que o sotaque americano de todos os filmes, músicas e afins. Desde que cheguei, fico muitas vezes a ver televisão, a ouvir rádio ou uma conversa entre duas pessoas só para apreciar o desenhar de cada palavra, as curva em cada sílaba, a entoação dada em cada frase. Gosto de cada som e de cada tique, daquelas palavras que estão sempre a repetir, aquelas expressões mesmo inglesas.

Com o tempo fui-me cruzando com diferentes sotaques, percebi de onde eles vinham, decifrei aquelas palavras que, de tão retorcidas, ficavam de vez em quando irreconhecíveis. Entreguei-me à descoberta do maravilhoso mundo do inglês falado e, pelo caminho, descobri verdadeiros ícones.

As sessões na Câmara dos Lordes são momentos inspiradores, mesmo quando a sala é composta apenas por quatro ou cinco Lordes ou Baronesas a discutir questões bafientas, num rol enfado de discursos intermináveis. Descobri o maravilhoso Jacob Rees-Mogg, para logo a segui o eleger como o expoente máximo da afetação. É o sotaque, a forma como arrasta as palavras, a colocação da voz. Imediatamente vejo chá e scones, o dedo mindinho esticado enquanto ergue a chávena. Uma delícia:




E faz-me tanto, mas tanto, lembrar isto:



Quase no extremo oposto, White Dee, a recente estrela da televisão britânica que pôs a nação a discutir em Benefits Street. Um verdadeiro exemplo do que de melhor Birmingham tem para nos oferecer em termos de sotaque.




E no meio disto tudo, não consigo deixar de imaginar o quão empolgante seria assistir a uma conversa entre os dois: de um lado Jacob Rees-Mogg, do outro White Dee. Seria a não perder.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Um post assim-assim e um dia frio

Hoje os termómetros voltaram a descer aos 4 graus e o sol não deu sinal de vida. Quando voltei a casa, chovia torrencialmente, o céu negro. Outra vez. Uma saída cortada na auto-estrada, fez-me seguir por um caminho secundário em que mal cabiam dois carros. Rodeada de ovelhas, do céu negro e da chuva, apeteceu-me encostar, parar para fotografar. Nem tinha a máquina comigo nem espaço para encostar. Segui com a promessa de lá voltar. Há país mais bonito do que este? Só se for Portugal.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Por aqui e por ali

Parece que o meu interesse por fotografia passou de inexistente a moderado desde que aqui cheguei. Aqui ficam algumas imagens do que por cá tenho visto.



Oxford

Leamington Spa


The Parade, Leamington Spa

Oxford

Birmingham Moor  Street >>> London Marylebone

St. Nicholas Park, Warwick

St. Nicholas Park, Warwick

St. Nicholas Park, Warwick

Amanhecer em Leamington

quarta-feira, 19 de março de 2014

Uma vida ao contrário

Pensei que isto de viver em Inglaterra se ficava por conduzir do lado contrário da estrada, com o volante do lado direito, usar libras e pensar em milhas em vez de quilómetros. Mas não. Trata-se também de encontrar um postal para o Dia do Pai num país que se prepara para festejar o Dia da Mãe. Depois de percorridos metros e metro de expositores repletos de postais para as mães, lá encontrei o único postal para o pai que não desejava feliz aniversário. Sim, que agora apanhei este tique dos postais. Viver aqui é também comprar um postal para cada ocasião e um dia até dedico um post a isso.

terça-feira, 18 de março de 2014

Eles sabem lá

Foi o segundo domingo consecutivo de sol e de temperaturas perto dos 20 graus. É estranho pensar que em abril do ano passado, quando chegámos, ainda vimos alguns flocos de neve cair pela manhã. Agora a primavera começa a dar ares de sua graça.
Em Inglaterra, domingo de sol é dia de sair à rua e um bom momento para nós, estrangeiros, apreciarmos de perto esta espécie de histeria coletiva que se apodera das gentes desta terra. Na verdade, depois de um ano por cá, nós próprios sentimos o espírito iluminar-se numa manhã de sol. Há engarrafamentos para estacionar no parque, descapotáveis na estrada, muitos calções, t-shirts e sandálias. Numa passagem pelo parque da cidade vizinha, embrenhamo-nos ao som dos carrosséis, das máquinas de algodão doce, do cheiro a vinagre do fish and chips. Há crianças aos magotes, são imensas, cada casal tem três, quatro, cinco filhos, todos seguidos e os casais saem juntos, cada um com três, quatro, cinco e ainda outro no carrinho. Às vezes são todos ruivos, sardentos, com grandes olhos azuis, uma delícia de se ver. Há mais crianças de trela, deve ser da temperatura, ficam mais mexediças.
Há cães, muitos cães, todos de raça, a andar de um lado para o outro, confusos, nervosos, com tanta gente de repente. Neste parque até há póneis, para a criançada dar uma volta. Há um jogo de hóquei na relva a decorrer e paramos para assistir. Nunca tal tinha visto, parece que falta alguma coisa, talvez a fluidez que o gelo ou os patins permitem, mas estão lá os tacos, a armadura do guarda-redes. É hóquei e eu dou por mim a aprender mais uma coisa nova.
Pelo relvado estendem-se pessoas, toalhas e comida, os baloiços lá ao fundo e do outro lado os bancos virados para o rio. Estes bancos trazem mensagens para quem já partiu, para quem nunca mais poderá receber o sol que os próprios bancos recebem. São mensagens escritas por familiares, amigos e inscritas no banco eternamente, em forma de placas cravadas na madeira. São homenagens lindíssimas, que umas vezes falam sobre a saudade, outras vezes contam pequenas histórias sobre quem, naquele mesmo banco, se sentava para alimentar os pássaros ou ver as crianças brincar. Há forma mais bonita de recordar alguém?
O parque está cheio de pessoas sedentas de sol e eu incluo-me nelas. É bom finalmente sentir o sol a bater diretamente na cara. Não resisto ao primeiro gelado do ano e sabe-me pela vida. Quando finalmente me começa a apetecer o casaco, os ingleses ainda sentem muito calor. Parece-me a mim que isto é até uma coisa constante: sentirem sempre muito calor. Saímos do parque quando já tenho a pele dos meus braços arrepiada e só me apetece carro e casa.
Com uma semana de algum sol que se aproxima, sei que me cruzarei com meninas de uniforme e de chapéu de palha, que vem incluído na fatiota e está, ao que me parece, reservado para os dias mais claros. É um chapéu pequeno, que prende no queixo com um elástico branco e que combinam normalmente com uma saia xadrez. Os meninos vão escolher os calções e a t-shirt e deixar em casa a camisola. À noite,vou passar por adolescentes desagasalhados com a pele vermelha do vento frio, entusiasmados com a primeiras noites de temperaturas positivas.
Quanto a mim, vai apetecer-me sempre um casaquinho. Venho das noites quentes de Portugal, aquele calor madrugada fora. A sensação de secar o cabelo só por sair à rua. Lembro-me de uma vez, em Évora, me ser difícil respirar, tão extremas que eram as temperaturas pela hora de almoço. Lembro-me de Braga, do Algarve... de deixar passar a hora de maior calor para sair de casa, dos gelados depois de jantar e de fechar as luzes para não entrarem melgas. Por cá, adivinha-se mais um verão sem melgas e sem siestas. Mal eles sabem que a coisa, assim, não tem piada nenhuma.


terça-feira, 11 de março de 2014

E o resto, é paisagem?

Muitas vezes, a tratar de assuntos em Portugal via telefone, as pessoas assumem automaticamente que eu moro em Londres, assim que eu refiro que estou em Inglaterra. Pus-me a pensar no assunto e acho que, por exemplo, se disser a alguém que moro na Alemanha, ninguém vai assumir automaticamente que estou em Berlim. Fenómeno estranho, este.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Descobertas literárias

A propósito do último post, descobri via facebook que o Haruki Murakami (Kafka à beira-mar, Sputnik Meu Amor, Crónica do Pássaro de Corda), lançou em 2009 um livro sobre corrida (e outras coisas). Já o tenho e, depois de ter lido as páginas iniciais, asseguro que vale a pena para quem se interessa por este tema.



terça-feira, 4 de março de 2014

Remédio para todos os males

Gosto de correr logo de manhã. Agora que estamos a sair do Inverno, os primeiros sinais de luz aparecem logo às seis e é mesmo nessa altura que gosto de sair. Quando as noites eram mais longas, acontecia-me sair à mesma hora que as aulas começavam e o resultado era sempre ter de contornar bandos de trotinetes e bicicletas, ao mesmo tempo que o trânsito ficava mais intenso. Agora com o amanhecer mais cedo, tenho as ruas só para mim e eu prefiro assim.
Nos primeiros tempos saía a medo, depois de alguma pesquisa e das indicações da senhoria sobre bons percursos por aqui perto. Lembro-me da estranheza das primeiras vezes: Não só tinha trocado a passadeira do ginásio português, como tinha passado a correr na rua. Em Inglaterra. Não me atrevia a alterar o meu percurso nem a afastar-me demasiado, era melhor assim. Com a música nos ouvidos, passava por algumas ruas residenciais e surpreendia-me a fartura de árvores, a largura dos passeios, a harmonia das casas. Em poucos quilómetros passava uma estrada ladeada de campos, era a parte mais difícil do percurso, mas também onde normalmente tinha a melhor vista do amanhecer.
Entretanto alterei e estendi a minha rota, descobri o prazer de correr por novas ruas, virar em todos os sentidos do mesmo cruzamento, subir ali só para ver o que é. O Endomondo dava-me os relatórios finais e podia estudar por onde tinha andado naquele dia, planear onde iria no dia seguinte. Descobri escolas, igrejas e um novo talho (coisa rara). Descobri também a minha casa favorita da cidade, que um dia tenho de fotografar. Perdi-me uma vez, num emaranhado de ruas de casas todas iguais. Às tantas já não sabia bem onde estava, para que sítio estava virada. Salvou-me um grupinho de crianças de trotinete e mochila a tiracolo, que persegui disfarçadamente porque sabia que se dirigiam para a escola, que me ficava a caminho.
Agora que vou de manhãzinha, não há crianças. Cruzo-me com pessoas a passear cães e outras a correr. Acontece muitas vezes os cães fixarem-me à distância, com um focinho curioso. Se estou a correr em direção a eles, cresce-lhes o entusiasmo à medida que as minhas passadas se aproximam. Consigo ver-lhes o brilho nos olhos fixos em mim, as lambidelas gulosas, a trela esticada, impaciente. Sinto alguma apreensão quando isto acontece, sobretudo porque sei que termina quase sempre num grande salto para cima de mim no momento em que passo por eles. Honestamente, nunca percebo bem se é uma mera saudação canina ou um comportamento agressivo, mas assusto-me sempre e rezo para que o dono tenha mão no animal.
Não vejo, apesar de tudo, que correr na rua traga muitas desvantagens em relação a correr no ginásio. A meu ver, uma das coisas menos boas será a inevitabilidade de correr em zonas com trânsito (a não ser que queiramos correr só no parque, mas eu cá prefiro alcatrão). Acho que devo ser uma medricas porque, desde os primeiros dias, tiro os auscultadores dos ouvidos sempre que vou atravessar uma estrada. Isto acontece naturalmente, sinto-me desorientada se tiver de controlar o trânsito que vem ao mesmo tempo que a música me grita aos ouvidos. Outra desvantagem é que, se corrermos em estrada, vamos acabar por passar por animais mortos na berma. Já me aconteceu algumas vezes e é arrepiante. Quanto às condições atmosféricas, deixaram de ser um problema desde que descobri a versatilidade do uso do boné. Serve para tudo, mas principalmente para a chuva porque a pala impede que ela venha parar diretamente aos olhos - fiquei maravilhada. A única coisa que não consegui controlar foi o gelo de algumas manhãs, que me fez escorregar várias vezes.
Para já, tem sido assim, uma descoberta amadora e solitária, com muitas visitas ao youtube para descobrir como fazer um bom aquecimento ou os alongamentos corretos. Visito alguns blogs mais ou menos especializados em corrida, leio coisas aqui e ali, acompanho alguns relatos sobre o maravilhoso universo dos ultra runners. Levo música, muita música, tento perceber o que me faz adiantar o passo, que música é melhor para as subidas mais compridas e que música funciona melhor quando chego lá acima. Sei que, se não correr, o dia vai correr pior. Duplica-me a energia, enche-me de força, faz-me respirar melhor. É o remédio para todos os meus males.