terça-feira, 18 de março de 2014

Eles sabem lá

Foi o segundo domingo consecutivo de sol e de temperaturas perto dos 20 graus. É estranho pensar que em abril do ano passado, quando chegámos, ainda vimos alguns flocos de neve cair pela manhã. Agora a primavera começa a dar ares de sua graça.
Em Inglaterra, domingo de sol é dia de sair à rua e um bom momento para nós, estrangeiros, apreciarmos de perto esta espécie de histeria coletiva que se apodera das gentes desta terra. Na verdade, depois de um ano por cá, nós próprios sentimos o espírito iluminar-se numa manhã de sol. Há engarrafamentos para estacionar no parque, descapotáveis na estrada, muitos calções, t-shirts e sandálias. Numa passagem pelo parque da cidade vizinha, embrenhamo-nos ao som dos carrosséis, das máquinas de algodão doce, do cheiro a vinagre do fish and chips. Há crianças aos magotes, são imensas, cada casal tem três, quatro, cinco filhos, todos seguidos e os casais saem juntos, cada um com três, quatro, cinco e ainda outro no carrinho. Às vezes são todos ruivos, sardentos, com grandes olhos azuis, uma delícia de se ver. Há mais crianças de trela, deve ser da temperatura, ficam mais mexediças.
Há cães, muitos cães, todos de raça, a andar de um lado para o outro, confusos, nervosos, com tanta gente de repente. Neste parque até há póneis, para a criançada dar uma volta. Há um jogo de hóquei na relva a decorrer e paramos para assistir. Nunca tal tinha visto, parece que falta alguma coisa, talvez a fluidez que o gelo ou os patins permitem, mas estão lá os tacos, a armadura do guarda-redes. É hóquei e eu dou por mim a aprender mais uma coisa nova.
Pelo relvado estendem-se pessoas, toalhas e comida, os baloiços lá ao fundo e do outro lado os bancos virados para o rio. Estes bancos trazem mensagens para quem já partiu, para quem nunca mais poderá receber o sol que os próprios bancos recebem. São mensagens escritas por familiares, amigos e inscritas no banco eternamente, em forma de placas cravadas na madeira. São homenagens lindíssimas, que umas vezes falam sobre a saudade, outras vezes contam pequenas histórias sobre quem, naquele mesmo banco, se sentava para alimentar os pássaros ou ver as crianças brincar. Há forma mais bonita de recordar alguém?
O parque está cheio de pessoas sedentas de sol e eu incluo-me nelas. É bom finalmente sentir o sol a bater diretamente na cara. Não resisto ao primeiro gelado do ano e sabe-me pela vida. Quando finalmente me começa a apetecer o casaco, os ingleses ainda sentem muito calor. Parece-me a mim que isto é até uma coisa constante: sentirem sempre muito calor. Saímos do parque quando já tenho a pele dos meus braços arrepiada e só me apetece carro e casa.
Com uma semana de algum sol que se aproxima, sei que me cruzarei com meninas de uniforme e de chapéu de palha, que vem incluído na fatiota e está, ao que me parece, reservado para os dias mais claros. É um chapéu pequeno, que prende no queixo com um elástico branco e que combinam normalmente com uma saia xadrez. Os meninos vão escolher os calções e a t-shirt e deixar em casa a camisola. À noite,vou passar por adolescentes desagasalhados com a pele vermelha do vento frio, entusiasmados com a primeiras noites de temperaturas positivas.
Quanto a mim, vai apetecer-me sempre um casaquinho. Venho das noites quentes de Portugal, aquele calor madrugada fora. A sensação de secar o cabelo só por sair à rua. Lembro-me de uma vez, em Évora, me ser difícil respirar, tão extremas que eram as temperaturas pela hora de almoço. Lembro-me de Braga, do Algarve... de deixar passar a hora de maior calor para sair de casa, dos gelados depois de jantar e de fechar as luzes para não entrarem melgas. Por cá, adivinha-se mais um verão sem melgas e sem siestas. Mal eles sabem que a coisa, assim, não tem piada nenhuma.


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