Hoje foi um curioso acordar para um domingo de manhã igual a tantos outros. Finalmente descansada e com uma noite completa de sono, pois que não me sai do pensamento desde as primeiras horas do dia esta Dona Alzira, de quem já não me lembrava há uns tempos. A Dona Alzira era uma mulher lá da aldeia do meu pai, conhecia-o desde pequeno e a nós também, desde bebés. Ainda consigo ouvir a voz esganiçada e o riso matreiro, lá de baixo do portão, sempre alguma coisa para contar. Era presença de todas as férias, de todos os fins de semana na aldeia, de todas as Páscoas e dias de Verão. E nós gostávamos da Dona Alzira. Era aventura pela certa, ir a casa da Dona Alzira e estranhar as paredes pretas do fumo, o banquinho ao lume e o cheiro entranhado a fumeiro. Não falhava a sacada de bolos lá da terra que nos dava satisfeita a mim, aos meus irmãos, aos meus primos. E os nossos nomes passavam todos a diminutivos, na voz esganiçada da Dona Alzira. Não se arreliava com a algazarra, gostava muito, era como se não conhecesse problemas ou não sentisse tristezas. A Dona Alzira era assim, trazia com ela esta leveza.
Agora já não há Dona Alzira. Apenas a suave recordação daquela figura ao portão, na mistura do cheiro das lareiras, as vozes dos homens nos cafés, o som dos animais ao longe.