sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Novo bólide: bifes, aqui vou eu!

Andei que tempos a tentar comprar um carro e finalmente decidi-me.
Procurei em sites da especialidade como o Autotrader, mas a coisa não se revelou tarefa fácil. Nenhum cumpria todos os requisitos e, se cumpria, o vendedor estava a uma distância enorme ou tinha acabado de vender o carro no próprio dia. Para além disso, há dois motivos que tornaram isto um processo tão lento: 1) Estou longe de ser uma especialista em carros; 2) A descrição do carro é feita em milhas, o que, para uma análise detalhada, obriga a um exercício constante de conversão. Por exemplo, um carro que faz consumos de 71 mpg, que em bom português significa 71 milhas por galão (Imperial Gallon, diga-se), tem, na verdade, uma média de 4l/100kms - e é assim que eu me entendo. Da mesma forma, se um carro já andou 60 000 milhas, interessa-me é saber que isso é o mesmo que 96 mil quilómetros e qualquer coisa. Não é que isto não seja um exercício interessante, que é, mas atrasou um bocado o processo.
Entretanto vou pensando que o consumo do carro não é a única coisa que está ao contrário: o volante e o sentido do trânsito também. Nos primeiros meses após a nossa chegada não me atrevi a pegar em nenhum carro que fosse. Sentia que a minha vida estava em risco de cada vez que atravessava uma passadeira porque olhava sempre para o lado errado, o que me fazia crer que pegar num carro resultaria em algo desastroso. Depois, por insistência do A., lá me comecei a aventurar aos poucos nas idas ao supermercado ou a conduzir até à cidade vizinha e percebi que a minha dificuldade não era bem em controlar um carro construído ao contrário, mas antes em acertar com o sentido do trânsito, com a faixa de rodagem certa. Sei que isto soa terrivelmente dramático, mas era mesmo assim. Lembro-me de perguntar, parada nos semáforos, "E agora? Entro onde?", com os carros que se multiplicavam à minha frente, vindos de todas as direções e a seguir em todas as direções. Não menos complicado era quando saía de um estacionamento para encontrar uma estrada deserta, sem nenhum carro a circular que servisse de indicador sobre o sentido a tomar. Até agora, estas experiências foram acompanhadas pelo A. no lugar de co-piloto, para me acudir nos momentos de maior aflição ou avisar-me que não estava no centro da faixa cada vez que eu rasava uma fila inteirinha de retrovisores.
Pois bem, se fechar o negócio do meu novo carro, serei eu, apenas eu, a trazê-lo até casa. Isto seria muito menos complicado se o stand não ficasse numa zona de Birmingham com uma afluência de trânsito particularmente intensa. Logo à saída, encontrarei uma rotunda enorme e até entrar em velocidade de cruzeiro ainda terei que passar por alguns cruzamentos e muito pára-arranca. Mesmo assim, acho que com alguma concentração, a coisa vai lá. Fingers crossed e bifes, preparem-se, aqui vou eu!





quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Desde que cheguei...

Tenho a sensação de que há algo de diferente no céu por estas bandas.
Posso ter-me deixado levar por alguma histeria de emigrante, encantada que estou com a nova terra, ou mesmo estar tão farta de Braga que já nem para o céu olhava, mas a verdade é que me parece que por cá há mais céus vermelhos, mais céus negros e, sobretudo, mais arco-íris. Ontem, da minha casa, a vista era esta:

Ontem, da minha casa

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Não sou daquelas pessoas

Não sou daquelas pessoas que insiste constantemente que "lá fora é que é", que "Portugal ainda tem muito que andar", e que repete vezes sem conta "Nem quero imaginar se isto fosse em Portugal". Acho que esses queixumes não levam a lado nenhum e já são mais um tique do que outra coisa. Não sendo um mar de rosas, é o nosso país e por isso devemos ter, sobretudo, orgulho nisso. Para mim esta ideia era pacífica até entrar em contacto com o Consulado Português em Manchester.
Precisava, urgentemente, do meu registo criminal em Portugal para começar um novo emprego. Sabia que o Consulado só aceita marcações por email (!) e foi por aí que comecei. Ao fim dos primeiros dias sem resposta comecei a ficar impaciente e decidi ligar. Tentei, sem sucesso, selecionar algumas opções que a voz automática me oferecia: todos os números que selecionava não tinham outro destino que não o fim abrupto da chamada e uma linha morta interminável - Por exemplo, se selecionasse a tecla 2, para tratar de assuntos relacionados com o Cartão de Cidadão (que, para mal dos meus pecados, deixei caducar), a chamada caía; Se selecionasse outra opção, só para ver o que acontece, a chamada caía na mesma. Com isto cheguei à última opção, que me permitia falar diretamente com um dos funcionários. Tentei durante 2 dias. Nunca ninguém atendeu.
Liguei para o Consulado de Londres. Podia ser que apesar da minha área de residência pertencer ao de Manchester, me permitissem ser atendida lá. Não permitiram e também me fizeram logo saber que não tinham nada a ver com o outro Consulado e por isso não me podiam ajudar. Liguei para a Embaixada e fiquei a saber que também não podiam fazer nada, mas que sabiam que o Consulado em Manchester só tinha 3 funcionários e que, por isso, não conseguiam dar conta do recado. A conselho da Embaixada, liguei para a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e expus a situação. Não podiam fazer nada. Disseram-me que enviasse um email para a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. Responderam ao meu email dizendo que lamentavam a situação, mas que o Consulado atravessava graves dificuldades de funcionamento devido aos insuficientes recursos humanos: Não podiam fazer nada.
Isto tudo aconteceu enquanto eu tentava despachar o assunto pedindo ao meu pai o favor de tratar disto por mim em Portugal, munido que estava da fotocópia do meu passaporte. Também não resultou: para minha surpresa, o passaporte válido não substituía o Cartão de Cidadão caducado, o sistema bloqueava por causa disso e o certificado do registo criminal não podia ser emitido. Em desespero, e planeando secretamente uma viagem a Portugal para tratar disto, liguei para a Direção Geral da Administração da Justiça, a saber o que fazer, se havia outra solução. Disseram-me que podia enviar por carta a fotocópia do passaporte, um formulário próprio preenchido e uma determinada quantia de dinheiro, que tratariam do assunto. Prontamente disse que o meu Cartão de Cidadão estava caducado e, para grande surpresa minha, disseram-me com ares de espanto que obviamente que o passaporte servia de substituto caso o Cartão de Cidadão estivesse caducado. Vá-se lá entender isto...
Passaram cerca de duas semanas. O Consulado não me respondeu ao email e continua sem responder às chamadas.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Dou a mão à palmatória

Nunca liguei muito àquela conversa do sentimento entre emigrantes, do sentido de união entre pessoas que partem de uma terra em comum para descobrir outra desconhecida. Achava que, de facto, devia existir ali qualquer coisa que as unisse de uma forma especial, mas no fundo achava que girava tudo à volta de um enorme clichê, já um bocado gasto e antiquado.
Quando eu e o A. chegámos a Inglaterra, saímos do comboio para uma cidade onde nunca tínhamos estado, de uma dimensão muito inferior a Londres e onde não conhecíamos absolutamente ninguém. Passámos os primeiros meses só os dois, sem programas de grupo ao fim de semana ou conversas no café ao fim da tarde. Éramos mesmo só os dois e, na verdade, isso não foi um grande problema porque estivemos atarefados com a lista imensa de coisas a tratar. Cada coisa era de uma complexidade surpreendente porque não estávamos ao corrente de muitos aspetos e tudo envolvia uma processo enorme de pesquisa. Mesmo assim, não estávamos sozinhos porque queríamos: estávamos sozinhos porque não conhecíamos ninguém.
Ficou-me na ideia que as primeiras pessoas que mudaram isso foram os nossos senhorios. Lembro-me de pensar, depois de alguns encontros e de nos oferecerem uma garrafa de vinho para a estreia da casa, que já tínhamos alguém a quem recorrer caso alguma coisa corresse terrivelmente mal. Foi aí que senti aquela sensação de alívio, a de poder gravar no meu novo telemóvel inglês o contacto de um amigo.
Entretanto conhecemos os primeiros portugueses na nossa cidade. Estávamos, de um dia para o outro, a comer bifanas no pão durante uma churrascada com a bandeira portuguesa desfraldada no estendal. E foi entre uma dentada e outra que percebi: afinal isto acontece mesmo, o sentirmo-nos tão próximos só por estarmos longe.
Ontem, durante um jantar de grupo no restaurante português, e enquanto trocávamos conselhos sobre onde comprar a melhor alheira ou queixas por causa do (mau) funcionamento do Consulado Português, decidi que o meu segundo post vos contaria isto: A descoberta de que, afinal, o sentimento português entre emigrantes na mesma terra existe mesmo... e recomenda-se.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O primeiro post

Aventuro-me nisto de escrever um blog quase um ano após ter aterrado em Inglaterra para viver por tempo indeterminado. Depois dos primeiros passos amedrontados, das primeiras semanas de incertezas e à medida que os meses se iam construindo, descobri que viver em Inglaterra é, como o será em qualquer país que não o nosso,  sobretudo isto: descobrir coisas novas todos os dias. Desconfio até que este blog será mais uma para somar à minha já extensa lista.