sábado, 28 de junho de 2014

Em conversa com um menino recém-chegado ao Reino Unido:

- Do you have any pets back in Albania?
- No understand, Miss.
- Do you have any dog, any cat? I used to have a dog...
- Yes, Miss, dogs. 20 dogs.
- 20 dogs?! Are you sure?...
- Yes, Miss. 20 dogs and 200 sheeps, Albania.

Na minha arrogância, achei que ele não dominava os números em inglês, que talvez me quisesse dizer que tinha dois cães. Mas não. Afinal o menino era pastor.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Cenas do quotidiano

Os ingleses são, regra geral, indivíduos civilizados ao volante. Para meu regozijo não há um que falhe a fazer corretamente as rotundas, nem tão pouco quem estacione a ocupar dois lugares no supermercado. Também parece que a distância de segurança é um conceito que lhes foi incutido, sabe-se lá como, mas é difícil percebermos que há alguém impaciente atrás de nós na auto-estrada, porque não se aproximam mais do que uns loucos 20 metros. Devem mandar olhares fulminantes de impaciência e barafustar porque não saímos do sítio, mas tudo lá ao longe, como mandam as boas regras. Também não é comum ultrapassarem os limites de velocidade, se o limite passa de repente para 40 milhas por hora, vão ali em filinha, tudo muito bem comportado. Parece-me que isto também é um bocado resultado de muitas câmaras de controlo e multas que devem ser a doer, mas a verdade é que a malta cumpre. Quero com isto dizer que os ingleses são tipos bastante respeitadores na estrada e, mais do que isso, bastante cordiais. São raros os casos em que não agradecem uma cedência de passagem inesperada e formam filas intermináveis atrás de bicicletas que não conseguem ultrapassar à hora de ponta. Mesmo se agradecemos terem parado para nos deixar fazer uma manobra, respondem de volta, com um aceno - e até muitas vezes, note-se, com um valente sorriso - para deixarem claro que nao tem problema nenhum, que tiveram todo o gosto em esperar. O trânsito baseia-se, portanto, numa convivência saudável e organizada entre condutores, ciclistas e peões. Mas não em Coventry. Coventry é um mundo à parte. 
Não há muito tempo, seguia eu ao volante numa qualquer rua desta dita cidade quando, ao arrancar num semáforo, deixei o carro ir abaixo. E era hora de ponta, num daqueles semáforos chatos, em que a fila é enorme e passam poucos carros de cada vez. Prontamente, os condutores atrás de mim me fizeram saber que tinha cometido um ato de enorme gravidade ao brindarem-me com um festival de buzinas. Note-se que eram várias buzinas, com diferentes intensidades, vindas de variadas distâncias, portanto soube logo ali que meia cidade estava naquela fila de trânsito. Como sempre acontece nestas situações - principalmente quando se tem em mãos mais um carro desconhecido (sim, porque graças à qualidade espantosa do carro que comprei, estou a experimentar toda a gama Citroen em versão carro de substituição) - não consegui logo pôr o carro a funcionar. Ó, que afronta! Triplicaram as buzinas, ia jurar até que foram insultos aquelas palavras que ouvi vindas da janela do carro de trás. E foi aí que vi o filme a desenrolar-se à minha frente... Sair do carro e bater com a porta, avançar lentamente em direção a eles, gritar-lhes se achavam que eu tinha deixado o carro desligar-se porque me deu na real gana! Perguntar-lhes depois se tal coisa nunca lhes teria acontecido nas suas carreiras brilhantes de condutores especialistas em pontos de embraiagem! Depois berrar-lhes ainda se achavam que buzinar que nem uns brutos ia ajudar-me a voltar a pôr o carro a funcionar! Tudo isto num inglês perfeito. Depois retirava-me, triunfante, eles com a lição aprendida.

Mas não. Não saí do carro. Retirei-me, mas não de uma forma que se possa dizer triunfante. Foi mais pôr-me ao fresco assim que o carro pegou, meia a suar, meia enrascada.. E fui para casa a pensar em como era bom de vez em quando uma pessoa ter coragem para fazer coisas dessas. E já não é a primeira vez que me pergunto o mesmo, o que deveria ser mais um motivo para o fazer. Mas depois pensei que talvez não fosse boa ideia. Pelo menos não em Coventry, que a coisa ainda dava para o torto.





domingo, 22 de junho de 2014

O Mundial visto daqui (continuação)

O A. convenceu-me. Pela primeira vez na vida ficarei acordada (muito mais) do que o suposto para ver um jogo de futebol em direto. O dia aqui começa a rolar cedo, à semana o despertador toca às 5 e meia e, portanto, por volta das 10 da noite já estamos mais para lá do que para cá. Isto faz com que ver um jogo de futebol com início marcado para as 23 horas seja uma atitude de enorme valentia.
A verdade é que nunca na minha vida vi tantos jogos como durante este Mundial. É a escolha para o serão nos últimos tempos, ver o jogo das 8 até cair para o lado. Acrescente-se que não estou a par de nada do que se passa no mundo futebolístico, não conheço as equipas, nao conheço os treinadores, confundo os jogadores todos e assim bem bem só sei quem são o Ronaldo e o Messi. Prova disso é outro dia ter comentado com o meu irmão que era canja porque estávamos no grupo do Gana e dos Estados Unidos, que eram equipas que ninguém dava nada por aquilo, e ele ter precisamente respondido que aquilo era comentário de quem nao percebia nada de futebol. 
A bandeira até caiu da parede cá de casa com o peso da derrota de Portugal no último jogo. No entanto, ponderamos levantá-la outra vez e até eventualmente, se a coisa mais para a frente correr bem, colocá-la bem visível na janela para que a vizinhança saiba quem mora (e manda) aqui. A ver vamos. Para já o maior desafio será mesmo aguentar os olhos abertos até ao final do jogo.

O meu blog nas bocas do mundo

Exagero meu. Mas o que é certo é que o Inside Job falou de mim e do meu blog aqui e isso é um enorme motivo de orgulho. Afinal de contas ainda há quem passe os olhos neste meu blog, cada vez mais domingueiro e com uns certos ares de decrépito. Até parece que se renovou a vontade de continuar a escrever, sabe-se lá bem do quê e para quê, mas de continuar a escrever nem que seja porque assim até dá gozo. 




domingo, 15 de junho de 2014

O Mundial visto daqui

Um anoitecer perto dos 20°C e um cheiro a churrasco no ar. À porta dos pubs, amontoados de adeptos naquele nervoso miudinho, era o Inglaterra-Itália, mas parece que o mundo todo saiu à rua. Na primeira tentativa de escolher um lugar qualquer em frente a um ecrã, informam-nos que o pub atingiu a lotação máxima, não deixam entrar mais ninguém. Conseguimos à segunda e espreitamos por entre duas colunas que nos roubam parte da imagem numa sala lotada de gente. Ingleses, julgamos nós. Ao primeiro golo de Itália, metade do pub grita de euforia, afinal não somos os únicos infiltrados. A outra metade olha curiosa, para ver quem ousa festejar assim, acho que também não se tinham apercebido que a sala afinal não torcia toda para o mesmo lado. Ao som dos gritos desesperados de incentivo "Come on, England!" vindos lá das primeiras filas, dou por mim a festejar o golo de Inglaterra. Estava a torcer por Inglaterra, pois! Itália não me diz nada, Inglaterra diz-me cada vez mais. Portanto nisto do Mundial, arrumei as ideias: Portugal vem em primeiro, mas Inglaterra em segundo. Amanhã jogamos nós e seremos mais portugueses do que nunca. Vai emocionar-nos o hino, o Ronaldo, o sermos portugueses no meio deles. Fingers crossed, "Come on, Portugal!".

domingo, 1 de junho de 2014

tak? tak.

Por trabalhar num serviço de suporte a grupos minoritários numa câmara municipal vizinha, lido todos os dias com pessoas de todo o mundo. Quando digo todo o mundo, é mesmo todo o mundo (ou pelo menos metade será com certeza): só entre os meus colegas conto naturais da Síria, Malásia, Paquistão, Roménia, Polónia, Eslováquia, Congo e outros que nem sei. Depois somam-se mais países no encontro com famílias que passam pelo nosso serviço. É uma verdadeira viagem todos os dias, e há sempre tema de conversa nas horas vagas porque num país é assim e no outro assado. Ouço todos os dias línguas muito diferentes e se há algumas em que vou percebendo uma ou outra palavra, outras há em que não apanho uma única expressão. É o caso do polaco, que é também o motivo deste post.
Esta semana acompanhei uma colega polaca em várias visitas domiciliárias pela cidade. Coincidentemente, algumas famílias que visitámos eram polacas, o que fez com que assistisse a várias conversas entre a minha colega e as famílias na língua nativa. É uma sensação estranha não perceber absolutamente nada do que duas pessoas conversam, não perceber sequer se é agora que se estão a despedir, se a conversa vai a meio ou no final. Um som repetido dezenas de vezes era tac, que afinal se escreve tak e, como eu suspeitava (a minha única aposta certeira - também mau era...), quer dizer sim em polaco. É um som muito curioso que nós, portugueses, usaríamos mais para descrever o barulho de uma batida do que como uma palavra propriamente dita. E acontece que os polacos, tal como os portugueses e provavelmente todos os povos do mundo, usam muitas vezes o "sim, sim, sim, sim" para responder a uma pergunta em vez de um simples "sim". Divertiu-me ouvir aquele som repetido com uma destreza incrível tak, tak, tak, tak. Depois outra vez, na pergunta seguinte: tak, tak, tak, tak. A toda a hora o tak, tak, tak, tak. Depois só duas vezes tak, tak e depois outra vez várias tak, tak, tak, tak. 
No meio daquele martelar fluído e de uma conversa involuntariamente secreta, senti o coração cheio, tão longe e tão perto daquelas pessoas. Pensei em como muitas vezes num dia de trabalho e sentada numa cadeira dou voltas e voltas ao mundo: todos os dias mais coisas novas, coisas boas, que me chegam sem pedir e sem esperar.