quinta-feira, 26 de junho de 2014

Cenas do quotidiano

Os ingleses são, regra geral, indivíduos civilizados ao volante. Para meu regozijo não há um que falhe a fazer corretamente as rotundas, nem tão pouco quem estacione a ocupar dois lugares no supermercado. Também parece que a distância de segurança é um conceito que lhes foi incutido, sabe-se lá como, mas é difícil percebermos que há alguém impaciente atrás de nós na auto-estrada, porque não se aproximam mais do que uns loucos 20 metros. Devem mandar olhares fulminantes de impaciência e barafustar porque não saímos do sítio, mas tudo lá ao longe, como mandam as boas regras. Também não é comum ultrapassarem os limites de velocidade, se o limite passa de repente para 40 milhas por hora, vão ali em filinha, tudo muito bem comportado. Parece-me que isto também é um bocado resultado de muitas câmaras de controlo e multas que devem ser a doer, mas a verdade é que a malta cumpre. Quero com isto dizer que os ingleses são tipos bastante respeitadores na estrada e, mais do que isso, bastante cordiais. São raros os casos em que não agradecem uma cedência de passagem inesperada e formam filas intermináveis atrás de bicicletas que não conseguem ultrapassar à hora de ponta. Mesmo se agradecemos terem parado para nos deixar fazer uma manobra, respondem de volta, com um aceno - e até muitas vezes, note-se, com um valente sorriso - para deixarem claro que nao tem problema nenhum, que tiveram todo o gosto em esperar. O trânsito baseia-se, portanto, numa convivência saudável e organizada entre condutores, ciclistas e peões. Mas não em Coventry. Coventry é um mundo à parte. 
Não há muito tempo, seguia eu ao volante numa qualquer rua desta dita cidade quando, ao arrancar num semáforo, deixei o carro ir abaixo. E era hora de ponta, num daqueles semáforos chatos, em que a fila é enorme e passam poucos carros de cada vez. Prontamente, os condutores atrás de mim me fizeram saber que tinha cometido um ato de enorme gravidade ao brindarem-me com um festival de buzinas. Note-se que eram várias buzinas, com diferentes intensidades, vindas de variadas distâncias, portanto soube logo ali que meia cidade estava naquela fila de trânsito. Como sempre acontece nestas situações - principalmente quando se tem em mãos mais um carro desconhecido (sim, porque graças à qualidade espantosa do carro que comprei, estou a experimentar toda a gama Citroen em versão carro de substituição) - não consegui logo pôr o carro a funcionar. Ó, que afronta! Triplicaram as buzinas, ia jurar até que foram insultos aquelas palavras que ouvi vindas da janela do carro de trás. E foi aí que vi o filme a desenrolar-se à minha frente... Sair do carro e bater com a porta, avançar lentamente em direção a eles, gritar-lhes se achavam que eu tinha deixado o carro desligar-se porque me deu na real gana! Perguntar-lhes depois se tal coisa nunca lhes teria acontecido nas suas carreiras brilhantes de condutores especialistas em pontos de embraiagem! Depois berrar-lhes ainda se achavam que buzinar que nem uns brutos ia ajudar-me a voltar a pôr o carro a funcionar! Tudo isto num inglês perfeito. Depois retirava-me, triunfante, eles com a lição aprendida.

Mas não. Não saí do carro. Retirei-me, mas não de uma forma que se possa dizer triunfante. Foi mais pôr-me ao fresco assim que o carro pegou, meia a suar, meia enrascada.. E fui para casa a pensar em como era bom de vez em quando uma pessoa ter coragem para fazer coisas dessas. E já não é a primeira vez que me pergunto o mesmo, o que deveria ser mais um motivo para o fazer. Mas depois pensei que talvez não fosse boa ideia. Pelo menos não em Coventry, que a coisa ainda dava para o torto.





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