Os
ingleses são, regra geral, indivíduos
civilizados ao volante. Para meu regozijo não
há um que falhe a fazer corretamente as rotundas, nem tão pouco quem estacione a ocupar dois lugares no supermercado.
Também parece que a distância de segurança é um conceito que lhes foi incutido, sabe-se
lá como, mas é difícil percebermos que há alguém impaciente atrás de nós na
auto-estrada, porque não se aproximam
mais do que uns loucos 20 metros. Devem mandar olhares fulminantes de impaciência e barafustar porque não saímos do sítio, mas tudo lá ao longe, como
mandam as boas regras. Também não é comum
ultrapassarem os limites de velocidade, se o limite passa de repente para 40
milhas por hora, vão ali em filinha,
tudo muito bem comportado. Parece-me que isto também é um bocado resultado de
muitas câmaras de controlo e multas que
devem ser a doer, mas a verdade é que a malta cumpre. Quero com isto dizer que
os ingleses são tipos bastante
respeitadores na estrada e, mais do que isso, bastante cordiais. São raros os casos em que não agradecem uma cedência de passagem inesperada e formam filas intermináveis atrás
de bicicletas que não conseguem
ultrapassar à hora de ponta.
Mesmo se agradecemos terem parado para nos deixar fazer uma manobra, respondem
de volta, com um aceno - e até muitas vezes, note-se, com um valente sorriso -
para deixarem claro que nao tem problema nenhum, que tiveram todo o gosto em
esperar. O trânsito baseia-se, portanto,
numa convivência saudável e organizada
entre condutores, ciclistas e peões. Mas
não em Coventry. Coventry é um
mundo à parte.
Não há muito tempo, seguia eu ao volante numa
qualquer rua desta dita cidade quando, ao arrancar num semáforo, deixei o carro
ir abaixo. E era hora de ponta, num daqueles semáforos chatos, em que a fila é
enorme e passam poucos carros de cada vez. Prontamente, os condutores atrás de
mim me fizeram saber que tinha cometido um ato de enorme gravidade ao
brindarem-me com um festival de buzinas. Note-se que eram várias buzinas, com
diferentes intensidades, vindas de variadas distâncias,
portanto soube logo ali que meia cidade estava naquela fila de trânsito. Como sempre acontece nestas situações - principalmente quando se tem em mãos mais um carro desconhecido (sim, porque graças à qualidade
espantosa do carro que comprei, estou a experimentar toda a gama Citroen em
versão carro de substituição) - não
consegui logo pôr o carro a funcionar. Ó,
que afronta! Triplicaram as buzinas, ia jurar até que foram insultos aquelas
palavras que ouvi vindas da janela do carro de trás. E foi aí que vi o filme a
desenrolar-se à minha frente...
Sair do carro e bater com a porta, avançar
lentamente em direção a eles, gritar-lhes
se achavam que eu tinha deixado o carro desligar-se porque me deu na real gana!
Perguntar-lhes depois se tal coisa nunca lhes teria acontecido nas suas
carreiras brilhantes de condutores especialistas em pontos de embraiagem!
Depois berrar-lhes ainda se achavam que buzinar que nem uns brutos ia ajudar-me
a voltar a pôr o carro a funcionar! Tudo
isto num inglês perfeito. Depois
retirava-me, triunfante, eles com a lição
aprendida.
Mas não. Não
saí do carro. Retirei-me, mas não de uma
forma que se possa dizer triunfante. Foi mais pôr-me
ao fresco assim que o carro pegou, meia a suar, meia enrascada.. E fui para
casa a pensar em como era bom de vez em quando uma pessoa ter coragem para
fazer coisas dessas. E já não é a primeira
vez que me pergunto o mesmo, o que deveria ser mais um motivo para o
fazer. Mas depois pensei que talvez não
fosse boa ideia. Pelo menos não em
Coventry, que a coisa ainda dava para o torto.
Em resumo: Compra um carro automático! :-) beijinhos
ResponderEliminarNem mais!
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