domingo, 1 de junho de 2014

tak? tak.

Por trabalhar num serviço de suporte a grupos minoritários numa câmara municipal vizinha, lido todos os dias com pessoas de todo o mundo. Quando digo todo o mundo, é mesmo todo o mundo (ou pelo menos metade será com certeza): só entre os meus colegas conto naturais da Síria, Malásia, Paquistão, Roménia, Polónia, Eslováquia, Congo e outros que nem sei. Depois somam-se mais países no encontro com famílias que passam pelo nosso serviço. É uma verdadeira viagem todos os dias, e há sempre tema de conversa nas horas vagas porque num país é assim e no outro assado. Ouço todos os dias línguas muito diferentes e se há algumas em que vou percebendo uma ou outra palavra, outras há em que não apanho uma única expressão. É o caso do polaco, que é também o motivo deste post.
Esta semana acompanhei uma colega polaca em várias visitas domiciliárias pela cidade. Coincidentemente, algumas famílias que visitámos eram polacas, o que fez com que assistisse a várias conversas entre a minha colega e as famílias na língua nativa. É uma sensação estranha não perceber absolutamente nada do que duas pessoas conversam, não perceber sequer se é agora que se estão a despedir, se a conversa vai a meio ou no final. Um som repetido dezenas de vezes era tac, que afinal se escreve tak e, como eu suspeitava (a minha única aposta certeira - também mau era...), quer dizer sim em polaco. É um som muito curioso que nós, portugueses, usaríamos mais para descrever o barulho de uma batida do que como uma palavra propriamente dita. E acontece que os polacos, tal como os portugueses e provavelmente todos os povos do mundo, usam muitas vezes o "sim, sim, sim, sim" para responder a uma pergunta em vez de um simples "sim". Divertiu-me ouvir aquele som repetido com uma destreza incrível tak, tak, tak, tak. Depois outra vez, na pergunta seguinte: tak, tak, tak, tak. A toda a hora o tak, tak, tak, tak. Depois só duas vezes tak, tak e depois outra vez várias tak, tak, tak, tak. 
No meio daquele martelar fluído e de uma conversa involuntariamente secreta, senti o coração cheio, tão longe e tão perto daquelas pessoas. Pensei em como muitas vezes num dia de trabalho e sentada numa cadeira dou voltas e voltas ao mundo: todos os dias mais coisas novas, coisas boas, que me chegam sem pedir e sem esperar.

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