domingo, 6 de março de 2016

Corria o ano de 2016

Como está mais do que visto, não tenho tempo para nada, muito menos para escrever neste blog que, coitado, ainda hoje procura o sentido da sua existência. Até me atravessou várias vezes o pensamento a ideia de o apagar, de reconhecer que a coisa já tinha dado o que tinha a dar, mas não. É melhor não, porque apesar de o tempo ser escasso e de estar quase por completo em abandono, até nutro um certo carinho pelas palavras que aqui escrevi, todas tão verdadeiras, nem sempre espontâneas, mas tão verdadeiras.

Traz-me aqui hoje a memória de uma corrida recente, que nao me sai da cabeça, sobre a qual quero escrever para não esquecer. São sempre as minhas corridas favoritas, as de sexta-feira ao final do dia. Com uma semana às costas, algumas horas de sono a menos acumuladas, é o que tenho vontade de fazer, estacionar o carro e correr desalmadamente por essa cidade fora. Porque é sexta-feira e não há pressas para planear o dia seguinte, nem pressas para planear o jantar, nem pressas em geral. É como se viesse à tona da água, depois de uma semana inteira sem respirar por estar submersa numa espécie de vai-e-vem sem fim, um corrupio de auto estradas, computadores, demasiada gente em todo o lado. É ali que páro, mesmo enquanto o meu corpo corre.
Desta vez, bati a porta da rua atrás de mim e entrei num pisa papéis daqueles com neve dentro, como aquele que trouxe de Colónia há uns bons anos atrás, o meu souvenir preferido. Ia jurar que não nevava naquela noite, mas ela lá estava, para grande espanto meu. A neve caía ainda em flocos pequenos, em câmara lenta, em silêncio. Ajeitei as luvas e lá fui eu, com o entusiasmo contido. Eu nem senti o cansaço, eu corri, mas não dei pelo chão debaixo de mim, nem pelo tempo a passar. Fui espreitar o castelo, com toda aquela neve, que agora caía com intensidade, em flocos grandes e me entrava pela boca, pelo nariz, que se acumulava nos vidros dos carros e nas minhas luvas. Eu nem senti o frio, continuei deslumbrada, os flocos cada vez maiores, nevava a sério, mais do que alguma vez tinha visto. Soube logo ali que por muitos anos que passem, estará gravado na minha memória, bem lá no fundo, este início de noite de Março, corria o ano de 2016.

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