domingo, 23 de fevereiro de 2014

Dou a mão à palmatória

Nunca liguei muito àquela conversa do sentimento entre emigrantes, do sentido de união entre pessoas que partem de uma terra em comum para descobrir outra desconhecida. Achava que, de facto, devia existir ali qualquer coisa que as unisse de uma forma especial, mas no fundo achava que girava tudo à volta de um enorme clichê, já um bocado gasto e antiquado.
Quando eu e o A. chegámos a Inglaterra, saímos do comboio para uma cidade onde nunca tínhamos estado, de uma dimensão muito inferior a Londres e onde não conhecíamos absolutamente ninguém. Passámos os primeiros meses só os dois, sem programas de grupo ao fim de semana ou conversas no café ao fim da tarde. Éramos mesmo só os dois e, na verdade, isso não foi um grande problema porque estivemos atarefados com a lista imensa de coisas a tratar. Cada coisa era de uma complexidade surpreendente porque não estávamos ao corrente de muitos aspetos e tudo envolvia uma processo enorme de pesquisa. Mesmo assim, não estávamos sozinhos porque queríamos: estávamos sozinhos porque não conhecíamos ninguém.
Ficou-me na ideia que as primeiras pessoas que mudaram isso foram os nossos senhorios. Lembro-me de pensar, depois de alguns encontros e de nos oferecerem uma garrafa de vinho para a estreia da casa, que já tínhamos alguém a quem recorrer caso alguma coisa corresse terrivelmente mal. Foi aí que senti aquela sensação de alívio, a de poder gravar no meu novo telemóvel inglês o contacto de um amigo.
Entretanto conhecemos os primeiros portugueses na nossa cidade. Estávamos, de um dia para o outro, a comer bifanas no pão durante uma churrascada com a bandeira portuguesa desfraldada no estendal. E foi entre uma dentada e outra que percebi: afinal isto acontece mesmo, o sentirmo-nos tão próximos só por estarmos longe.
Ontem, durante um jantar de grupo no restaurante português, e enquanto trocávamos conselhos sobre onde comprar a melhor alheira ou queixas por causa do (mau) funcionamento do Consulado Português, decidi que o meu segundo post vos contaria isto: A descoberta de que, afinal, o sentimento português entre emigrantes na mesma terra existe mesmo... e recomenda-se.

2 comentários:

  1. É verdade, é sempre bom sentir que temos um porto seguro.
    Quando precisarem de uma sopinha, sabem onde pedir. ;)

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