quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Cenas do quotidiano
Saio de casa para ir trabalhar, abro a porta da rua e murmuro insultos sei lá a quem. O carro está congelado e eu esqueci-me outra vez que isto ia acontecer. Consciente da tarefa que me aguarda e já preocupada com as horas, tento abrir a porta de trás para pousar a carteira. A porta de trás não abre. Consigo mexer o puxador, mas está tudo envolto num bloco de gelo. Tento do outro lado: o mesmo. Com dificuldade, abro a porta da frente e enfio tudo lá para dentro: carteira, casaco, tudo. Saco do raspador que encomendámos da Amazon. Mais valia termos estado quietos, é pequeno e o gelo raspado salta todo para as minhas mãos, que já estão vermelhas do frio, quase queimadas imagino eu. Onde raio estão as minhas luvas quando preciso realmente delas? Não vou procurar, o tempo está a passar e ainda tenho algum caminho pela frente. O raspador é mesmo inútil, raspa os primeiros milímetros de gelo, de uma camada valente. Isto assim não vai lá. Atiro o raspador lá para dentro e volto a casa. Com os dedos congelados quase faço disparar o alarme porque tenho dificuldade em coordenar os movimentos para digitar o código. Plano B: Encho uma jarra de água e despejo no vidro. Resultou assim-assim, metade do vidro ficou melhor, a outra metade continua congelada. Raspo os retrovisores e entro no carro: agora só falta desembaciar o vidro por dentro e toca a andar. Ligo o carro, a ventilação no máximo - agora é que acordei os vizinhos todos, se é que já não tinham acordado com o barulho do raspador - e pego na esponja para limpar o vidro. Apercebo-me com desespero que não é vapor, é gelo. Gelo dentro do carro, como é que isto foi acontecer? Nunca tinha visto nevar dentro de um carro: eu a raspar o gelo do interior do vidro e a ventilação no máximo a fazê-lo voar para todo o lado. Tenho gelo no cabelo, no volante, no casaco, na carteira. Uma alegria. Quando a coisa está mais ou menos limpa, ponho-me a caminho, a mexer estrategicamente a cabeça de forma a conseguir espreitar pelos intervalos limpos no vidro. As mãos molhadas, enregeladas, não ouço nada, a ventilação sempre no máximo, as escovas e a água do limpa vidros congeladas o caminho todo. Para completar o cenário, o vidro a pingar por dentro. Que deprimente. De repente começo a lembrar-me dos carros com vidros aquecidos, bancos aquecidos, volante aquecido. Dava tudo para nesta manhã tenebrosa ter um assim. Juro que nunca mais digo que isso são mariquices caprichos. Nunca mais.
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