quarta-feira, 1 de julho de 2015
Ela saiu de casa em direção ao supermercado: como sempre, como quase todos os dias, a casa precisava de ser abastecida de coisas elementares. Naquele dia cinzento, e na tentativa de escapar à interação social que envolve o pagamento numa caixa normal, ela optou pelo self check out, era perfeito. Ela sabia que ao dirigir-se para uma caixa normal, teria provavelmente de descrever como estava a ser o seu dia so far e quais os planos para o fim de semana. Ia responder com simpatia, ela achava curioso aqui as pessoas fazerem essas perguntas. Mas não estava para aí virada, naquele dia tudo isso lhe parecia interação a mais. A carregar com o cesto, que, como quase sempre, estava demasiado pesado, lá aterrou numa das caixas self service. Enquanto começa, interroga-se porque é que o volume das instruções automáticas estará sempre tão alto nestas caixas. WELCOME! PLEASE, SCAN YOUR FIRST ITEM! Os bips repetem-se à velocidade da luz, ela sente-se uma autêntica profissional. Já sabe as manhas da máquina e as compras sucedem-se do cesto para o saco a uma velocidade razoável. De repente, aparece um nabo. É verdade, ela lembra-se agora, tinha pegado no nabo logo no início, achou de repente que usava pouco nabo na sopa e quase nunca o via nas prateleiras do supermercado. Então decidiu trazê-lo. Não querendo abrandar o ritmo, ela rola o nabo com as duas mãos, de certeza que deve ter um pequeno autocolante com um código de barras. Não encontrando nenhum código, lembra-se que é uma chatice, que quando é assim, a máquina prevê que se procure o produto alfabeticamente. Com o indicador esticado na direção da máquina, ela não se consegue lembrar como se diz nabo. A palavra está-lhe mesmo debaixo da língua, mas que raio... ela não se consegue lembrar... nabo, nabo, ela sabe, mas não se lembra. Era o que mais faltava àquela dona de casa, ela que queria era despachar as compras e sair dali para fora, agora não consegue lembrar-se como se diz nabo. Todos os outros legumes dançam na sua cabeça, ela lembra-se de todos os ingredientes para a sopa, e até de alguns vegetais mais exóticos, mas o nabo, esse não. Por que raio havia ela de ter tido a ideia de trazer um nabo? Ela que quase nunca compra nabo e que até nem lhe aprecia particularmente o sabor, foi de impulso colocar um nabo no cesto e agora estava ali, enrascada. No fundo, ela sabe que é sempre assim, e montes de ditados populares lhe atravessam a mente, todos a dizer o mesmo, que às vezes quanto mais pressa temos, mais devagar andamos. Discretamente, chama a atenção do funcionário que lá está. Mas ela não dá parte de fraca, não lhe diz que só se lembra como se diz nabo em português. Em vez disso, e com ar desinteressado, pergunta-lhe se aquilo não devia ter um código ou algo do género. Solícito e rápido, o funcionário explica que naquele caso, há que procurar o nome do produto e lá vai ele, cheio de iniciativa, com o indicador esticado, selecionar o turnip, quantidade: 1. TURNIP! Agora a dona de casa lembra-se! É isso, claro, TURNIP! E ela agradece-lhe o facto de ele ter explicado o procedimento, ela não sabia o que fazer, porque o nabo não tinha código. Sai do supermercado uma dona de casa pensativa, é assim mesmo, uma pessoa está sempre a aprender. E desde aquele dia, a dona de casa não voltou a esquecer-se como se diz nabo.
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